Ela sabia que precisava fazer algo diferente, mudar qualquer coisa que fosse, antes que aquela atmosfera a engolisse. Eram todas aquelas lembranças, todos aqueles momentos que passavam sem parar por sua cabeça, como num filme antigo...
Era preciso tomar uma atitude, mostrar que sabia viver por si só ainda, mostrar para si mesma como era forte e decidida! Estava na hora de fazer aquelas coisas que gostaria de fazer, precisava enfrentar a falta daquela mão segurando a sua, daquele olhar de "estou aqui pra cuidar de ti", e daquela companhia nos momentos difíceis e nos momentos bons...
Então ela caminhou em direção àquele lugar que há tanto já conhecia, mas que nunca ousara entrar sozinha...ao ver a conhecida escadaria, seu estômago foi parar no pé e sentiu vontade de recuar, de admitir que era fraca, covarde...mas era tarde demais para isso agora, e ela sabia que precisava entrar lá e fazer o que tinha prometido para si mesma, caso contrário, passaria o resto da vida lamentando.
Entrou, a velha maquininha do primeiro andar estava ligada, com seu barulhinho tão semelhante ao da broca de dentista, mas tão mais relaxante...os velhos rostos sorriram pra ela, e o velho amigo já veio cumprimentar e perguntar o que ela fazia lá naquele dia, se não tinham marcado nada. Ela só respondeu "meu negócio é no andar de cima hoje!" e riu pra ele.
Ele daria um capítulo a parte em um livro...tão diferente do meio em que vivia, tão sereno, tranquilo...ele transmitia a ela uma confiança que não sabia descrever, que só ele conseguia...em em meio a um aparente caos, ele parecia controlado e resoluto...ele parecia tão deslocado, mas tão perfeito em sua maneira de estar ali...
Foi então que o outro chegou...aquele que ela já não visitava a tanto tempo, aquele que conhecera sua fraqueza infantil, seu medo e ao mesmo tempo sua determinação. Ele disse 'o que tu pretende', e ela explicou direitinho o que viera fazer ali (sem dizer, é claro, o motivo implícito e simbólico daquela ação) e então os dois subiram.
No momento em que ele fechou a porta, ela sentou-se na cadeira de alumínio gelado e começou a obsrvar a sua volta: uma maca preta, que contrastava com a brancura impecável de todo o resto, uma mesa, repleta de instrumentos que ela achava interessantíssimos, um espelho de tamanho médio e moldura branca, e todas aquelas paredes apertadas, brancas e sem nenhuma janela. Ele sentou-se em sua frente e começou a explicar como ela deveria agir depois de sair dali. Palavras duras, difíceis; palavras amedrontadoras, que a faziam querer recuar cada vez mais. Mas então ela encontrou os seus olhos, seus pequenos olhos orientais...e ela viu toda a paz e a calma de sua alma, ali à sua frente, quase como uma coisa que se pudesse apanhar e ter para si. E de repente ela tinha para si, ela estava em paz também, e nenhuma das coisas que ele parecia estar dizendo preocupavam-na agora, e ela sabia que estava pronta! Ela sabia que aquele seria o momento em que provaria para si mesma como era capaz de fi car sozinha!
Então ela disse 'tudo bem, vá em frente'...e de um segundo para o outro, sua alma parecia cheia de orgulho e de auto-realização. Ela conseguira!
Saiu porta afora com o maior sorriso do mundo e pensando 'qual será meu próximo passo?' ;)