O balcão estava cheio de copos vazios virados, e coberto por uma mistura líquida de tantas bebidas que tinham sido derramadas por ali. O cheiro de álcool envolvia a aura do lugar, e emaranhava-se com o fedor dos cigarros e dos charutos. As paredes eram pretas, cheias de quadros escuros e com fotos de artistas de rock, e em um canto, perto das imensas prateleiras amarelas com bebidas de marca, havia um relógio: quadrado, cor de chumbo e com números grandes (para facilitar a leitura no ambiente escuro e enfumaçado). Os ponteiros brancos indicavam o tênue momento que difere a noite da manhã, e o segundeiro parecia arrastar-se naquele movimento circular.
Ao lado do bar, estava o palco, que a essa hora parecia ter sido arrasado por um furacão. A bateria, já sem os pratos e o pedal, tinha algumas de suas peles furadas, e os tambores estavam todos desalinhados. O tapete era quase camuflado, de tantas manchas que tinha, sem contar nos repertórios esquecidos, os cabos, soltos e umas palhetas perdidas. No fundo do palco, os amplificadores pareciam colossos, intactos e com sua grade brilhosa, alheios à quase-guerra que acontecera ao resto do palco. Em um canto estava ela, ou melhor, o que sobrara dela: o corpo meio deformado e arranhado de uma Fender, com uma escala branca, mas que fora quebrada ao meio, e pendia para o lado, presa ao resto daquela carcaça apenas pelas cordas. Era uma guitarra bonita quando ainda estava inteira: um corpo vermelho-sangue, um espelho (parte onde ficam os botões e os captadores) branco, com o braço e a mão seguindo o tom do corpo. Os trastes eram destacados com madrepérola e suas separações prateadas brilhavam ao receber a luz dos holofotes que iluminavam o palco.
O som mecânico embalava a cena de fim-de-mundo com um blues antigo, que tinha um ritmo embolado, uma sensação triste de tarde nublada; o cantor expressava toda a agonia da sua vida de negro desempregado do Mississipi em 1950, e todo o salão era contagiado por aquela atmosfera de bairro pobre e negro, discriminado pela sociedade americana da época, e quase era possível ver o cantor sentado no bar, chorando seus problemas para o bartender.
Um homem com aparência cansada, de olhos opacos, cabelos brancos e mãos trêmulas, arrastava um pano ensebado no balcão, enquanto um outro homem, mais jovem, mas que tinha a mesma alma rasgada do velho do bar, passava uma vassoura no chão. Ao lado da pilha de copos vazios no balcão, sentado em um dos bancos altos de resina preta, estava um rapaz. Ele usava uma camisa preta, colete de cetim, calças de alfaiate e um sapato de verniz. Na cabeça, uma cartola tapava seus cabelos negros, compridos na altura do queixo, e que caíam sobre o seu rosto. Os olhos transpareciam melancolia, e seu cheiro era de perfume francês, que parecia ser a única coisa a quebrar o fedor que consumia o lugar. Ele tinha uma pele branca, e lábios grandes, que tinham o gosto amargo do conhaque. No bolso do colete, uma foto quase caindo, com o rosto de uma mulher. A luz e a essência que saíam do sorriso dela contrastavam com o ambiente triste e denso, e a energia dela era tão forte que emergia da foto, aumentando os batimentos cardíacos dele. No pescoço do rapaz, um medalhão dourado, em forma de coração e completamente esculpido à mão, que pendia preso a uma corrente de aço, feita de finas tiras trançadas.
As mãos eram pequenas e lisas, o que dizia que ele devia ter por volta de vinte anos, apesar do resto de sua aparência ser de uns quarenta amargos anos. Todos os seus dedos carregavam anéis prateados, decorados e lisos, que deixavam seu visual mais carregado e forte, fazendo par com as quatro argolas que usava em sua orelha esquerda. No banco ao lado dele, estava um livro de capa de couro preto, amarrado por uma fita de cetim vermelho-escuro e com as letras impressas em dourado: Sangue e Ouro – Anne Rice. Sobre o livro, uma bilhete meio amassado, escrito com letras femininas, onde se podia ler “desculpe-me, adeus”; e uma rosa vermelha já murchando.
Mariana Gil
(antes que venham comentários dizendo que eu errei o ditado, é INTENCIONAL! xP)
4 comentários:
vini:
bá legal teu estilo de escrever... É raro achar alguém que sabe falar sobre coisas um pouco obscuras sem exagerar na melancolia.... Li o teu texto : blues e conhaque. Tu tens um "q" ultraromântico que tu sustenta com um estilo fluente e agradável de escrita... Nesse texto tu usou algumas coisas meio comuns no romantismo: rosa,medalhao,livro com bilhete. Mas acho que isso foi o mais legal,ver que tu mesmo usando essas coisas conseguiu cercá-las por um ambiente que parece ter relação com a questão do rock,isso eu achei bem legal... Tem algumas coisas que ficaram sensancionais no texto. o blues e o linck com a história estadounidense a crise e a questão dos negros e a descrição da guitarra.... Parabéns.... bá foi mal se enchi o saco hauhauaa
abraço
Obrigada Vini! Sempre é bom ouvir elogios de estranhos! =D
Mary, tu escreve simplismente muito bem. O Vini destacou super certo o apelo melancólico sutil e um jeito ameno de tratar a obscuridade a decadência e a desgraça, sem carregar nos clichês. Realmente parabéns, vou virar leitor assíduo.
Vou te linkar no meu blog, que tem contos meus, se quiser visitar http://historias-da-noite.blogspot.com ou clica no Tomás Kroth ali em cima xD
Beijos guria, e parabéns.
"Qualquer coincidência, é mera semelhança... ;)"
Não consegui evitar relacionar alguns personagens do texto com pessoas... :P
Mas muito bom o texto, deixou um gostinho de quero mais... :)
Ah, esse vini já comentou no meu blog, não faço idéia de quem seja. O.o
beijo
Não há muito o que falar,não to afim de ser redundante e repetitivo, sabe o qu penso do que tu escreve. Sabe, é muito comum e facil escrever, principalmente na adolescncia e no inicio da fase adulta...sabe como é, muitos sentimentos ao mesmo tempo,muita coisa nova acorrendo, fica mais facil de expor semtimentos e imaginação....Porém, há aquelas pessoas, que não importa a fase da vida, sempre terão o dom de com algumas linhas excitar a imaginação de qualquer um...E quer saber de uma coisa MON AMOUR?! você é uma delas!!
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